Saúde

Doença de Creutzfeldt-Jakob: sintomas, causas, diagnóstico e cuidados

A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma condição priônica rara, progressiva e grave. Saiba reconhecer sinais de alerta, entender o diagnóstico, as formas da doença e os cuidados disponíveis no Brasil.

Ilustração de Representação médica e editorial de cérebro humano em azul com destaque sutil para conexões neurais, relacionada à Doença de Creutzfeldt-Jakob.

A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença priônica humana rara, neurodegenerativa, progressiva e fatal. Ela afeta o cérebro e pode provocar uma demência de evolução rápida, acompanhada de alterações de movimento, comportamento, fala, visão e coordenação. Por ser incomum e ter sintomas que podem se parecer com os de outras doenças neurológicas, o diagnóstico exige avaliação médica especializada e investigação cuidadosa.

No Brasil, a DCJ integra a lista de doenças de notificação compulsória desde 2005. A vigilância ajuda a investigar os casos suspeitos, orientar medidas de biossegurança nos serviços de saúde e identificar, entre outros pontos, possíveis formas não esporádicas da doença. O Ministério da Saúde reúne informações e publicações específicas sobre DCJ.

O que é a Doença de Creutzfeldt-Jakob?

A DCJ pertence ao grupo das encefalopatias espongiformes transmissíveis, também chamadas de doenças priônicas. Nessa condição, uma proteína naturalmente presente no organismo, chamada proteína priônica, adquire uma conformação anormal. Essa forma alterada pode induzir outras proteínas a também se dobrarem de maneira inadequada, levando a lesões no tecido cerebral.

O termo “espongiforme” está relacionado ao aspecto microscópico que o cérebro pode apresentar em exames neuropatológicos. Apesar de a expressão “transmissível” fazer parte da classificação, é importante não confundir a DCJ com uma doença contagiosa comum: ela não é transmitida pelo convívio cotidiano, por abraço, beijo, talheres compartilhados, contato sexual, tosse ou espirro.

A doença costuma ocorrer em adultos mais velhos, mas a idade e a apresentação variam conforme a forma clínica. A ocorrência é muito baixa: em diversos países, a estimativa é de cerca de um a dois casos por milhão de habitantes ao ano. Isso significa que sintomas como esquecimento, tremores ou desequilíbrio são muito mais frequentemente explicados por outras condições, que também precisam ser avaliadas sem demora.

Quais são as formas da DCJ?

A classificação da Doença de Creutzfeldt-Jakob é importante para a investigação médica, epidemiológica e familiar. As principais formas são:

  • DCJ esporádica: é a mais frequente, respondendo por aproximadamente 85% dos casos. Surge sem uma causa identificável, sem padrão familiar reconhecível e sem uma fonte conhecida de exposição.
  • DCJ hereditária ou genética: está relacionada a variantes no gene PRNP, que participa da produção da proteína priônica. Pode haver histórico familiar, mas a presença de uma alteração genética não determina, por si só, que uma pessoa desenvolverá a doença. A indicação de teste genético requer aconselhamento apropriado.
  • DCJ iatrogênica: é extremamente rara e pode estar associada a exposições específicas em procedimentos ou produtos médicos contaminados no passado, como certos enxertos ou instrumentos neurocirúrgicos. Protocolos de biossegurança reduzem esse risco.
  • Variante da DCJ (vDCJ): é uma condição distinta da DCJ clássica. Foi associada à exposição a produtos de bovinos com encefalopatia espongiforme bovina. Tem características clínicas e epidemiológicas próprias e é muito rara.

Não se deve atribuir automaticamente qualquer caso de DCJ ao consumo de carne bovina. A forma esporádica é a mais comum, e a DCJ clássica não é a mesma doença que a variante relacionada à encefalopatia espongiforme bovina.

Sintomas da Doença de Creutzfeldt-Jakob

Os sinais e sintomas podem variar de pessoa para pessoa. Em geral, chama atenção a progressão rápida de alterações cognitivas e neurológicas ao longo de semanas ou meses. No início, algumas manifestações podem ser inespecíficas e se confundir com depressão, ansiedade, distúrbios do sono, efeitos de medicamentos, infecções, doenças autoimunes ou outros tipos de demência.

Entre os possíveis sintomas estão:

  • piora rápida da memória, da atenção, da orientação e do raciocínio;
  • mudanças de comportamento, personalidade ou humor;
  • dificuldade para falar ou compreender a linguagem;
  • falta de coordenação, instabilidade para caminhar e quedas;
  • tremores e contrações musculares súbitas, chamadas mioclonias;
  • rigidez, lentidão de movimentos ou alterações posturais;
  • alterações visuais;
  • sonolência, fadiga, perda de apetite e dificuldade para engolir em fases mais avançadas.

Esses sinais não confirmam DCJ isoladamente. Há causas tratáveis de demência rapidamente progressiva e de alterações neurológicas agudas ou subagudas. Por isso, procurar atendimento médico é indispensável, especialmente diante de perda funcional acelerada, confusão nova, dificuldade para andar, crises convulsivas, fala alterada ou redução do nível de consciência.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da DCJ é complexo. Não existe um único exame simples capaz de confirmar todos os casos em vida. O neurologista considera a velocidade de evolução, os sintomas, o exame neurológico, o histórico clínico e familiar e os resultados de testes que também servem para excluir diagnósticos alternativos.

Na investigação, podem ser solicitados exames de sangue e de líquido cefalorraquidiano, obtido por punção lombar, para buscar outras causas de comprometimento neurológico. A ressonância magnética do encéfalo pode mostrar padrões compatíveis em determinadas regiões cerebrais. O eletroencefalograma também pode contribuir em alguns contextos.

Em centros especializados, o teste RT-QuIC no líquido cefalorraquidiano pode oferecer evidência importante de doença priônica quando positivo, dentro de uma avaliação clínica adequada. Já a confirmação definitiva tradicionalmente depende de exame neuropatológico ou imunodiagnóstico do tecido cerebral, geralmente realizado após o óbito. Isso não significa que uma pessoa precise passar por biópsia cerebral de rotina: o procedimento é invasivo e não costuma ser necessário quando a combinação de dados clínicos e laboratoriais permite classificar o caso.

As diretrizes diagnósticas também levam em conta a exclusão de doenças que podem parecer DCJ, como encefalites, alterações metabólicas, doenças autoimunes, intoxicações, epilepsia, AVCs, tumores, demências de outras causas e efeitos adversos de medicamentos.

Existe tratamento para a DCJ?

Até o momento, não há tratamento comprovado capaz de interromper ou reverter a progressão da Doença de Creutzfeldt-Jakob. O cuidado é voltado para conforto, controle de sintomas e suporte à pessoa e à família. Essa abordagem deve ser individualizada e conduzida por uma equipe de saúde, que pode incluir neurologia, enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, psicologia, serviço social e cuidados paliativos.

Alguns sintomas, como dor, ansiedade, agitação, insônia, espasmos musculares e dificuldades de deglutição, podem ser manejados de acordo com a necessidade clínica. Também é fundamental prevenir complicações relacionadas à imobilidade, quedas, aspiração de alimentos ou líquidos, desidratação e infecções.

Cuidados paliativos não significam abandono de tratamento. Eles buscam preservar dignidade, aliviar sofrimento e ajudar nas decisões práticas e emocionais ao longo da doença. Conversas antecipadas sobre preferências de cuidado podem ser valiosas, sempre respeitando a autonomia da pessoa enquanto isso for possível.

A DCJ é contagiosa? Familiares precisam de isolamento?

Não. Não há evidência de transmissão da DCJ esporádica por contato social habitual. Familiares não precisam se afastar, usar utensílios separados ou mudar a convivência por receio de contágio. O apoio afetivo e a organização da rotina são especialmente importantes em uma doença de evolução tão rápida.

As precauções específicas se aplicam principalmente a procedimentos de saúde que envolvem tecidos de maior infectividade, especialmente em contexto neurológico ou oftalmológico. Nesses cenários, os serviços devem seguir protocolos de biossegurança e processamento de materiais próprios para suspeita de doenças priônicas. Essas medidas são responsabilidade das equipes e instituições de saúde.

Quando buscar atendimento médico?

É recomendado procurar avaliação urgente quando houver piora cognitiva rápida, confusão mental recente, alterações marcantes de personalidade associadas a perda de autonomia, dificuldade para andar, quedas repetidas, movimentos involuntários, mudança visual importante, fala enrolada ou dificuldade para engolir.

Em uma situação de declínio neurológico acelerado, a prioridade não é tentar identificar a causa pela internet, mas buscar um serviço de saúde. A investigação precoce pode ajudar a reconhecer condições tratáveis e organizar o suporte adequado caso exista suspeita de DCJ ou de outra doença neurológica grave.

FAQ sobre Doença de Creutzfeldt-Jakob

Doença de Creutzfeldt-Jakob tem cura?

Não há, até o momento, tratamento capaz de curar ou parar comprovadamente a progressão da DCJ. O manejo é de suporte, com foco no alívio de sintomas, segurança, conforto e apoio à família.

A DCJ é hereditária?

Alguns casos são hereditários e relacionados a alterações no gene PRNP, mas a maior parte é esporádica, sem padrão familiar reconhecido. Quando há suspeita de forma genética, a avaliação deve ser feita por neurologista e, quando indicado, por genética médica com aconselhamento genético.

Qual é a diferença entre DCJ e Alzheimer?

As duas doenças podem comprometer memória e outras funções cognitivas, mas a DCJ em geral tem evolução muito mais rápida e costuma vir acompanhada de outros sinais neurológicos, como mioclonias, ataxia, alterações visuais e rigidez. Apenas a avaliação médica pode diferenciar as causas de demência.

Uma pessoa com DCJ transmite a doença para quem convive com ela?

Não pelo contato cotidiano. Abraçar, beijar, compartilhar refeições, usar o mesmo banheiro ou conviver na mesma casa não é considerado forma de transmissão da DCJ esporádica. As medidas especiais de biossegurança são destinadas aos serviços de saúde em situações específicas.

A Doença de Creutzfeldt-Jakob é de notificação compulsória no Brasil?

Sim. A DCJ faz parte da lista nacional de doenças de notificação compulsória desde 2005. A notificação é realizada pelos serviços de saúde e contribui para a vigilância epidemiológica, a investigação dos casos e a orientação de medidas de biossegurança.

Foto de Marcia Limma

Escrito por Marcia Limma

Nutricionista

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