A expressão “obesos e a nova geração Z” costuma aparecer em buscas sobre o aumento do excesso de peso entre pessoas jovens. Mas é importante começar pelo modo de falar: pessoas com obesidade não devem ser reduzidas ao peso corporal. A obesidade é uma condição crônica e multifatorial, influenciada pela interação entre biologia, ambiente, rotina, acesso a alimentos, sono, saúde mental, trabalho, renda e oportunidades de movimento.
Para a geração Z — grupo geralmente associado a adolescentes mais velhos e adultos jovens — discutir o tema exige ir além da ideia de falta de força de vontade. No Brasil, dados do Vigitel 2023 apontaram obesidade em 24,3% dos adultos residentes nas capitais e no Distrito Federal. Embora esse levantamento não represente isoladamente toda a geração Z, ele mostra que o excesso de peso é uma questão relevante de saúde pública no país. Consulte o relatório Vigitel 2023.
Por que a obesidade pode afetar a geração Z?
Não existe uma causa única. O ganho de peso ao longo do tempo acontece quando diferentes fatores se combinam, e essa combinação varia muito entre as pessoas. Predisposição genética, uso de certos medicamentos, alterações hormonais, condições de saúde e experiências emocionais podem fazer parte do quadro. Por isso, comparar corpos ou aplicar uma solução idêntica para todos não é adequado.
Ao mesmo tempo, jovens vivem em um cenário que favorece escolhas rápidas: jornadas de estudo e trabalho extensas, deslocamentos, alimentação feita fora de casa, aplicativos de entrega, publicidade digital e pouco tempo para cozinhar. Produtos ultraprocessados tendem a ser práticos, muito palatáveis e amplamente disponíveis. O Guia Alimentar para a População Brasileira orienta que a base da alimentação seja composta por alimentos in natura ou minimamente processados e que o consumo de ultraprocessados seja limitado.
O comportamento sedentário também merece atenção, mas não deve ser confundido apenas com o uso de telas. Estudar, trabalhar e se deslocar sentado pode ocupar boa parte do dia. A atividade física regular traz benefícios para a saúde física e mental em diferentes pesos corporais; ainda assim, ela não substitui uma avaliação individual nem deve ser usada como punição pela alimentação. A Organização Mundial da Saúde destaca que muitos adolescentes no mundo não alcançam os níveis recomendados de atividade física. Veja a síntese da OMS sobre atividade física.
Redes sociais, imagem corporal e alimentação
As redes sociais fazem parte da rotina da geração Z e podem ter efeitos contraditórios. Elas ajudam a encontrar receitas, comunidades de apoio, profissionais e informações sobre movimento. Porém, também expõem usuários a padrões corporais irreais, dietas restritivas, publicidade disfarçada e promessas de emagrecimento rápido.
Uma revisão científica sobre adultos jovens encontrou associação entre exposição a conteúdos centrados em aparência, imagem corporal negativa e escolhas alimentares desfavoráveis, mas isso não prova que a rede social seja a causa isolada desses comportamentos. O efeito depende do tipo de conteúdo, da frequência de uso, das vulnerabilidades individuais e do contexto social. Leia a revisão indexada no PubMed.
Saúde não é sinônimo de um padrão estético. Metas de cuidado devem considerar bem-estar, exames, disposição, sono, funcionalidade e qualidade de vida, e não apenas um número na balança.
Quais são os possíveis impactos à saúde?
A obesidade pode estar associada a maior risco de pressão alta, diabetes tipo 2, alterações no colesterol, apneia do sono e doenças cardiovasculares. Os riscos e as necessidades de cuidado, porém, não são iguais para todos. Em adolescentes, a avaliação também precisa considerar fase de crescimento, histórico familiar e curvas específicas para idade e sexo; o IMC de adulto não deve ser interpretado de forma isolada nessa faixa etária.
O estigma é outro problema concreto. Comentários sobre corpo, bullying, discriminação em consultas e a pressão para emagrecer podem favorecer isolamento, ansiedade, depressão ou comportamentos alimentares desordenados. A linha de cuidado do Ministério da Saúde orienta uma abordagem centrada na pessoa e alerta para os prejuízos da estigmatização no tratamento. Conheça a orientação do Ministério da Saúde.
Hábitos realistas para jovens adultos
Uma mudança sustentável costuma começar com ajustes possíveis, e não com dietas extremamente restritivas. Algumas estratégias práticas podem ajudar:
- planejar refeições simples para reduzir a dependência de pedidos por impulso;
- priorizar arroz, feijão, verduras, frutas, ovos, carnes, leite ou alternativas compatíveis com a cultura e o orçamento da pessoa;
- reduzir gradualmente refrigerantes, bebidas adoçadas e alimentos ultraprocessados, sem transformar um alimento em “proibido”;
- fazer pausas no tempo sentado e escolher uma atividade prazerosa e acessível;
- organizar horários de sono e observar se o cansaço está dificultando a rotina;
- buscar apoio de familiares, amigos e serviços de saúde, quando necessário.
Para quem está começando a se movimentar, a caminhada para emagrecer com segurança pode ser uma alternativa de baixo custo, desde que adaptada ao condicionamento, às limitações e à orientação profissional quando indicada.
Quando procurar atendimento?
Vale procurar uma Unidade Básica de Saúde, médico, nutricionista ou equipe multiprofissional quando houver ganho de peso persistente, preocupação com a relação com a comida, cansaço excessivo, ronco intenso, alteração de pressão ou glicose, sofrimento emocional ou tentativas repetidas de dietas sem acompanhamento. O SUS possui uma linha de cuidado para sobrepeso e obesidade, com prevenção, acompanhamento e encaminhamentos conforme as necessidades de cada caso. Veja informações sobre a linha de cuidado do SUS.
Medicamentos e cirurgia bariátrica não são atalhos nem decisões baseadas somente em estética. Quando indicados, fazem parte de um plano clínico individual, com avaliação de benefícios, riscos, histórico de saúde e acompanhamento contínuo.
Perguntas frequentes
A geração Z tem mais obesidade do que outras gerações?
Não é correto afirmar isso de forma geral sem comparar pesquisas equivalentes por idade, período e região. O mais seguro é reconhecer que a obesidade é um problema crescente de saúde pública e que jovens estão expostos a ambientes que podem dificultar escolhas saudáveis.
Ficar no celular causa obesidade?
Não necessariamente. O celular, por si só, não explica a obesidade. O uso prolongado pode se associar a mais tempo sentado, sono inadequado, alimentação distraída ou exposição a publicidade, mas o peso corporal resulta de múltiplos fatores.
Dietas da internet funcionam para pessoas jovens com obesidade?
Dietas muito restritivas podem ser difíceis de manter e aumentar o risco de deficiência nutricional, compulsão ou piora da relação com a comida. Um plano alimentar deve respeitar rotina, preferências, orçamento, saúde e objetivos individuais.
É possível cuidar da saúde sem focar apenas em emagrecer?
Sim. Melhorar a qualidade da alimentação, dormir melhor, reduzir o sedentarismo, tratar condições associadas e cuidar da saúde mental são objetivos válidos. Se houver indicação de perda de peso, ela deve ser discutida de modo realista, respeitoso e acompanhado por profissionais.





